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08/11/2007 - 20:15

Ariano Suassuna dá aula-espetáculo sobre a Cultura Brasileira

O escritor e dramaturgo Ariano Suassuna abriu na quinta-feira (8) o Seminário Internacional Saberes Vivos, com aula-espetáculo sobre a Cultura Brasileira.

Guilherme Jeronymo - 100canais

“A emancipação cultural é o marco final de todo um processo de libertação de um povo que marcha ao encontro de seu próprio destino”.
Clóvis Salgado


Com o tema de “O barroco e o popular na Cultura Brasileira”, aconteceu na quinta-feira (8) a aula-espetáculo do escritor e dramaturgo, antigo professor da UFPE e torcedor fanático do Sport Clube do Recife, com presença e “introdução” do ministro Gilberto Gil, dando início ao Seminário Saberes Vivos.

Em sua fala introdutória, Gil caracterizou este Seminário como um conjunto de atividades que dão substância e sentido a esta segunda edição da TEIA. O ministro deu ainda o mote para o tema que seria determinante para esta palestra – o futebol. Entre os seus privilégios de ministro, como afirmou, esteve o de conversar com Suassuna por 15 minutos, no camarim, onde tece “uma aula brasileiríssima sobre o futebol nordestino”, passando pelo Sport, pelo Náutico e pelo Santa Cruz, e ainda por questões da Copa de 1950, que pediu ao Imortal que colocasse à platéia, já então beirando as 1000 pessoas, lotação da parte baixa do Grande Teatro do Palácio das Artes.

Desculpando-se por seu pigarrear e sua rouquidão, Suassuna perpassou, com bom humor vivificante, sobre a história de sua vestimenta e sua relação com Portugal, e por conseqüência expondo seu nacionalismo apaixonado. Percebeu-se, nessa talvez meia hora ou uma hora da aula, uma paixão contagiante pela vida, materializada em sua relação com a esposa, com a pátria, com a língua, o povo e uma de suas maiores manifestações, o futebol.

Sim, para Ariano o futebol é expressão nossa (pouco depois, em brincadeira com um fundo de verdade, localizou um drible no centro de uma pintura rupestre paraibana, de 4000 anos aproximadamente). E deixou claro que considera que só poderemos caminhar enquanto nação na medida em que estudarmos e compreendermos todos os setores de nossa sociedade, o futebol inclusive. No colorido de sua fala, Suassuna fez menção a um drible de Robinho, quase uma dança, em partida recente entre Brasil e Equador (pelas eliminatórias da Copa do Mundo, em 17 de novembro). Disse que a jogada do craque lhe devolveu a alegria e que “ele joga como quem dança”. “Eu vi garrincha jogar, e ele jogava com alegria, ele jogava dançando. Somos um povo que musical, dançarino e teatral. Quero ver nosso povo jogando assim”, completou.

Em seguida, fez ainda menção a um dos temas que permeou toda a sua palestra: o preconceito com o negro e a falta de valorização deste, apesar de sua gana, ao que disse: “O grande povo negro do Brasil é talvez o mais injustiçado, mas ainda assim é o maior responsável por toda essa alegria”.

Foram então uma série de exemplos, nessa aula sobre a poesia de ser brasileiro, de ações do naipe do drible do Robinho. O escritor contou de Carla Belfort, que, com uma vida incrível “dançava como uma iluminada” o tambor de crioulo no Maranhão, e que ele levará para Recife. Falou ainda, mostrando uma série de fotos, sobre a Casa Flor, residência de Gabriel Joaquim dos Santos, e que, analfabeto até os 36 anos, fez casa como Robinho joga, gravando flores com cacos, como faziam, porém sem conhecer o trabalho, de Gaudí – arquiteto espanhol e um dos maiores do século 20. Falou ainda da expressão plástica do poeta mineiro Aleijadinho, com seus doze profetas em Congonhas do Campo, e terminou seu exemplo com menção à beleza da ginástica e da expressão de Daiane dos Santos, a quem elogiou as posturas de valorização do país e de seu papel como representante do país, enquanto atleta.

A edificante aula, porém, não foi feita somente de elogios. Ferino, falou mal da arquitetura de Oscar Niemeyer. Não que lhe tenha desconsiderado como bom arquiteto, mas o desconsiderou, por suas obras sem cor, como arquiteto brasileiro, arrematando que considera que a Arte, na arquitetura, é um enriquecimento, como na cidade de Piranhas, na margem do São Francisco, que mostrou para todos.

Criticou ainda a inércia de alguns, a falta de vida, dizendo que pintores, escultores, políticos, devem exercer sua atividade como Robinho joga, com força e paixão, característica que entende como tão nossa. E a postura dos que não entendem a arte brasileira como algo único, parte, sim, do universal, manifestação nossa, como qualquer cultura é manifestação de seu povo.

Sobre o fazer do escritor, Suassuna disse ainda que, se este país estivesse pronto, poderiam se dar ao luxo de ficar sentados em suas casas escrevendo. “Não está, e a gente tem de cerrar os dentes”. Por isso, disse, inventa também, mente também ao escrever, pois “temos de saber que somos um grande povo, de primeiríssima categoria”, diz, ainda fazendo menção à unidade e a diversidade do povo brasileiro. Nesse sentido, mencionou ainda frase do pensador carioca Alceu Amoroso Lima, que disse que: “do Nordeste para Minas corre um eixo que não por acaso corre junto do Rio São Francisco, o rio da unidade nacional. A esse eixo o Brasil tem de voltar de vez em quando, para não esquecer quem é”. Cabe a nós, mineiros e nordestinos, disse o Imortal, ampliar isso, dizendo que esse eixo também vai para o Amazonas e para o Rio Grande.

No último texto da aula-magna deste seminário, apresentou uma composição sua, realizada à época do governo do presidente Bóris Yeltsin, na Rússia, época de um capitalismo atroz e um neoliberalismo galopante aqui e lá. Na época, criticou duramente Gorbachev e Yeltsin, como traidores de sua pátria, como grandes criminosos ao aviltar sua própria cultura, roubar-lhe a alma. Criticou ainda a economia de mercado, que disse não ser a base da democracia, mas da plutocracia, inclusive no tocante à Cultura, e disse que toda obra, quando nasce, deve ser local, tornando-se universal pela qualidade, ou não será verdadeira arte ou alguma cultura, ao que completou: “nesse sentido, minha obra é não mais que um caco, para erguer o Brasil, que poderia ter sido e não o foi. Hoje vejo isso como o Brasil que vai ser, e que deve ser, e que ainda nesse século vai iluminar o mundo”.

Ao encerrar sua participação, contou sua concepção do que mudou a Copa de 1950, atribuindo a derrota à intervenção do então prefeito da cidade do Rio de Janeiro, que no intervalo pediu ao zagueiro brasileiro que não mais cometesse faltas, intervindo então na ação do povo, no futebol, no viver nosso, para se adequar a um padrão externo. E, com isso, nos pondo ao chão. Ao fim, Ariano recebeu um salve da platéia, ao que respondeu, categórico e nacionalista: “viva o povo brasileiro”.


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